Discurso de inauguração do Dojo das Oliveiras




Essa ligação à Natureza surge como que por chamamento. As práticas que fazemos despertam a nossa sensibilidade para esse contacto mais próximo e vivenciado com a Natureza e com o trabalho de quem lida com ela. As práticas que fazemos destinam-se às pessoas, para as despertarem para uma verdadeira consciência de si, dos outros e do mundo, estejam elas onde estiverem. Por isso, em vez dum sumptuoso Dojo na Natureza, apresento-vos um humilde Dojo na cidade, num prédio situado numa zona dum urbanismo meio caótico. Contudo, decidi chamar-lhe Dojo das Oliveiras.
Esta parte da cidade, antes de ser invadida por casas e prédios, era um olival no centro do qual estava um moinho (recentemente demolido). Até há poucos anos existia nesta zona um lagar de azeite. Do olival restam ainda algumas oliveiras aqui bem perto da porta, que em breve serão arrancadas para se abrirem mais ruas e se construírem mais prédios, onde vão morar mais pessoas.
Em criança, vivi numa aldeia rodeada por sobreiros, figueiras e sobretudo oliveiras. As oliveiras fazem parte das minhas memórias mais antigas. Está algures neste espaço uma pequenina escultura que eu fiz aos quinze anos a partir dum ramo de oliveira. Está aqui também um tambor do norte de África, cujo corpo é feito de tronco de oliveira. Os troncos colocados neste Tokonoma são de oliveira. Nos vasos à entrada estão plantadas duas pequenas oliveiras selvagens.
As oliveiras são árvores dum valor inestimável, por aquilo que nos dão e por aquilo que simbolizam, além de possuírem uma beleza deslumbrante. Dão madeira rija, bonita e cheirosa que se usa em mobiliário, artesanato e obras de arte, sendo também óptima para nos aquecer nos dias frios do Inverno, quando utilizada em lareiras e em fogueiras. Dos seus rebentos novos fazem-se verdascas com as quais alguns conseguem detectar água no subsolo, para a abertura de poços e furos. As azeitonas são preparadas de mil maneiras, ganhando outros tantos gostos, sejam ainda verdes ou já maduras, negras.
O Mediterrâneo separa e une três continentes. Diferentes línguas, religiões e tradições contornam esse mar. A bebida por excelência dos europeus do sul é o vinho; a dos africanos do norte e asiáticos do médio oriente é o chá. Mas, o azeite ultrapassa todas as barreiras e é o tempero por excelência na culinária de todos os povos mediterrânicos. O azeite une o que tanta coisa separa. Esse líquido mágico, de cor e cheiro únicos, acompanha a história dos povos mediterrânicos, desde a aurora das primeiras civilizações. Desde há mais de 5.000 anos que o azeite é utilizado na culinária, na iluminação, na medicina, em cerimónias religiosas, como unguento, bálsamo e perfume, como lubrificante de alfaias e impermeabilizante de tecidos.
No Egipto, a deusa Ísis tinha o mérito de ensinar a cultivar oliveiras. Uma lenda grega atribui a criação da oliveira à deusa Atena, que a terá feito brotar de um golpe e de seguida ensinado o seu cultivo. Também na Grécia, as mulheres que pretendiam engravidar sentavam-se à sombra destas árvores. Da sua madeira faziam-se ceptros reais. Com o azeite ungiam-se monarcas, sacerdotes e atletas. Com as folhas e os ramos mais finos faziam-se grinaldas e coroas para os vencedores. Filósofos e escritores veneraram estas árvores. Diz-se que Platão costumava sentar-se debaixo duma oliveira com os seus discípulos e ali, com eles, filosofar. Sófocles considera esta “gloriosa árvore” como “Nossa doce e prateada ama de leite. Nascida sozinha e imortal, sem temer inimigos, desafiando os velhacos com a sua força.” Na Grécia existem parques naturais com oliveiras quase bi-milenares, que são visitadas e respeitadas por estudiosos, turistas e curiosos.
Outra lenda conta que os irmãos Remo e Rómulo, fundadores de Roma, nasceram debaixo duma oliveira. Minerva, a deusa protectora de Roma, oferece oliveiras aos romanos, como um presente divino. Escreveu Virgílio: “Com um ramo de oliveira o Homem purifica-se totalmente”. Estrabão conta que só se podia queimar madeira de oliveira no “altar dos deuses”, sendo proibido queimá-la para fins profanos.
Maomé aconselhava os seus seguidores a untarem o corpo com azeite. Em Jerusalém existe o Jardim das Oliveiras, nome actual do antigo horto de Gethsemani, local para onde se retirou Cristo depois d’A Última Ceia. Diz-se ainda existirem aí oito oliveiras que O viram rezar, chorar e morrer. Estou certo de que Buda, se tivesse vivido no mundo mediterrânico, teria escolhido uma oliveira para, debaixo dela, procurar a iluminação.
No Antigo Testamento, o sinal de que o dilúvio tinha chegado ao fim e de que as águas recuavam foi dado por uma pomba, que Noé soltou, tendo voltado para dar a boa nova. Esse episódio viria a tocar o génio de Picasso, que fez com que uma pomba branca e mansa, com um ramo de oliveira no bico, se tornasse um símbolo de paz.
Não se consegue saber com rigor a idade das oliveiras mais velhas, pois estas árvores não criam anéis regulares. Mas sabe-se que algumas das árvores mais antigas que existem em Portugal, com cerca de mil e quinhentos anos, se situam aqui bem perto de Setúbal: zambujeiros no Zambujal, do lado nascente; oliveiras em Azeitão, do lado poente. (Curiosos, não passam despercebidos, de modo algum, os nomes destas localidades!)
Existem alguns núcleos de oliveiras milenares no sul de Portugal, que fazem parte dum património histórico e cultural que nos está na alma, que nos lembra sobretudo um legado inestimável que herdámos dos fenícios, dos romanos e dos árabes. O maior desses núcleos, situado no vale do Guadiana, foi recentemente bastante delapidado com a construção da barragem de Alqueva. Por todo o lado se vendem oliveiras centenárias e milenares do Guadiana. Até em Espanha se vendem oliveiras milenares portuguesas.
As pessoas são muito distraídas, e só agora descobriram o potencial estético destas maravilhosas árvores. Por todo o lado surgem agora oliveiras: em jardins, quintais, rotundas e até em vasos.
Por serem bastante exploradas para consumo humano, as oliveiras são sujeitas a podas regulares, pelo que parecem não crescer muito. Mas se se deixar crescer livremente uma oliveira, aos mil anos ela poderá ser maior do que um castanheiro adulto. Elas não crescem depressa, mas cedo se tornam fortes. São árvores bastante resistentes a doenças e a intempéries, não se ressentindo nem de longos períodos de seca, nem dos Invernos mais rigorosos. Depressa reagem depois das podas (mesmo que exageradas) parecendo ressuscitar, com novos e viçosos rebentos. As oliveiras parecem manter-se serenas perante todas as adversidades. Assim poderemos ser nós! Além de paz e serenidade, as oliveiras simbolizam também decisão, força, sabedoria, abundância e glória. Já que utilizamos imagens da Natureza para nos conduzirem na prática e no Caminho, a oliveira deverá ser uma referência a não esquecer.

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