“Falta ambição para desenvolver a olivicultura”

“Falta ambição para desenvolver a olivicultura”
O ministro Jaime Silva fala da olivicultura como uma oportunidade e diz que “falta iniciativa, dinâmica e ambição” para desenvolver o sector olivícola na Beira Interior
À MARGEM de uma acção de divulgação da Bienal do Azeite 09 na Assembleia da República (ver pág. 17), o ministro da Agricultura desafiou os empresários a “arriscarem mais” no sector olivícola da Beira Interior, onde considera que “falta dinâmica e ambição”. Jaime Silva recorda que estão disponíveis apoios “que podem chegar aos 60 por cento do investimento” e que o futuro do sector passa pela revitalização de “olivais antigos, de lagares e de linhas de engarrafamento” e pela criação de uma grande marca na região, “uma indicação de origem com dimensão no mercado”. A produção de azeite biológico é um dos caminhos apontados por Jaime Silva
JF – Que incentivos existem hoje para a revitalização do olival?
JAIME SILVA – Temos um conjunto de apoios que vão desde o Proder para o investimento de plantação de novos olivais e modernização de olivais antigos, construção dos lagares, construção de linhas de engarrafamento. Dentro do Proder, através do Leader, podemos financiar tudo o que seja divulgação, centros de comercialização, imagens e marcas, criar micro empresas ou criar um grande pólo de distribuição em toda a Beira Baixa.
É importante criar esse pólo de distribuição?
Claro que sim, porque tal iria permitir aos pequenos e médios agricultores que não têm capacidade de colocar os seus produtos em mercados tão longínquos como a China fazê-lo. Criar um núcleo que dê uma dinâmica empresarial (a Câmara de Castelo Branco está apostada nisso), um núcleo que garanta a esses agricultores que há quem engarrafe, que há quem venda com mais-valias o azeite nos grandes mercados internacionais.
Tradicionalmente, o olival português não é uma cultura intensiva. O olival é hoje uma cultura rentável?
Não é uma cultura intensiva mas é uma cultura que tem um leque de oportunidades com diferentes tipos de ofertas no mercado. Por exemplo, a maior parte do olival tradicional tem uma densidade muito inferior a 300 árvores por hectare e pode facilmente ser transformado em azeite biológico que é muito valorizado em mercados como o da Escandinávia. Esse é, por exemplo o destino para o nosso olival tradicional. Depois temos as nossas variedades: a galega, por exemplo, que pode não dar para o superintensivo, mas já dá para o olival intensivo, é um outro patamar. Só para termos uma ideia, o hectare de cereal por ano emprega 0,4 homens, o hectare de olival chega quase a um homem. Se tiverem indústria transformadora, lagar e engarrafamento, são mais de quatro. Ou seja, cria mais riqueza, cria mais emprego e é muito mais importante do que estar a fazer cereais de sequeiro.
O azeite da Beira Baixa pode afirmar-se como um produto de exportação?
Hoje o azeite é um mercado que se está a sofisticar tanto como o do vinho. Já há provas internacionais, concursos internacionais e se o queijo de Castelo Branco e o Queijo Amarelo da Beira Baixa ganharam prémios em Nova Iorque, porque é que o azeite não pode conquistar também esses mercados?
O azeite tem ganho uma dimensão turística. Como é que encara essa situação?
Penso que os azeites tem muito a ganhar com a experiência já consolidada dos vinhos, por exemplo a Rota dos Vinhos. Os azeites podem aproveitar essa estrutura que já está montada e juntar-se como uma mais-valia nesses circuitos. Até porque o azeite é um produto que está na dieta alimentar.
Um dos problemas em Portugal é a rotulagem do azeite. De que maneira se pode alterar essa situação?
O grande desafio que eu quero lançar em Castelo Branco é o haver uma nova legislação. Pela primeira vez, os portugueses terão de olhar para o rótulo das garrafas e ver a informação da origem do azeite
Com a nova legislação isso não vai acontecer?
Nós não podemos perder essa carruagem. Com a nova legislação, que é obrigatória em toda a UE, temos de passar a ter nos rótulos se é ou não um produto português. Actualmente, o que é obrigatório é a indicação de caso seja uma denominação de origem protegida. Ora as nossas denominações de origem em termos de oferta de mercado não representam mais de 10%. Mas nós temos muito mais azeite que o que é comercializado, sem se saber de onde vem o azeite, sem sabermos mesmo se se trata de uma mistura de azeites...
O que falta a este sector?
Falta dinâmica, faltam pessoas como o sr. presidente da Câmara diz há algumas associações com excelentes técnicos na Beira Baixa. Mas faltam também empresários que arrisquem. Falta ambição, porque as medidas estão lá, e falta-lhes união. Primeiro, terem a noção de que há sempre um risco, depois que esse risco não é tão grande como noutras actividades porque temos financiamentos que em alguns casos vão até 60% do custo do investimento. Falta, na Beira Baixa, iniciativa.
Falta dimensão ao olival na Beira Interior?
Hoje não basta plantar o olival. É preciso sabê-lo transformar, saber engarrafá-lo, sabê-lo vender e é preciso ter dimensão. É preciso que se perca na Beira Baixa ou na Beira Alta esse individualismo, esse medo do risco ou a ideia de que somos pequeninos. Não somos.
Existem nichos de mercado para o azeite da Beira Baixa explorar?
O azeite biológico tem imensa margem para crescer. E o azeite, com as nossas variedades, sobretudo a galega que se dá particularmente bem na Beira Baixa, é um exemplo da diferenciação face ao azeite da arbequina que é o azeite maioritário do Alentejo, como o é face aos azeites de Trás-os-Montes que tem outras variedades mais fortes com paladares mais intensos.
Alguns produtores de azeite defendem que uma das soluções seria criar uma marca única. Concorda?
Eu não diria uma marca única mas sim que tal pode passar por criarmos uma indicação geográfica com dimensão: azeite alentejano, azeite das Beiras e azeite de Trás-os-Montes. Essas indicações geográficas deveriam funcionar como marcas para o consumidor, até porque são azeites muito diferentes uns dos outros. Depois, deixar a cada um a iniciativa de ter a sua própria marca, ter a sua própria capacidade de explorar o seu nicho de mercado. Criando um chapéu com uma grande dimensão e com uma imagem de qualidade, que seria o azeite das Beiras (que hoje estamos aqui a provar), teríamos campanhas de promoção colectivas .
Iniciativas como esta degustação e a Bienal do Azeite são importantes para criar essa dinâmica?
São muito importantes porque chamam a atenção dos portugueses para produtos de altíssima qualidade. Por outro lado, chamam os locais para os informar que há apoios, que há capacidade, que há vontade, inclusive a nível local através das Câmaras Municipais.
Quando será lançado o concurso final para acabar o regadio da Cova da Beira?
O senhor Primeiro Ministro já o disse que vamos fazer a última adjudicação para a sua conclusão este ano, antes do Verão. São 70 milhões de euros naquele que é o concurso final, para acabar o Regadio da Cova da Beira.
O ministro Jaime Silva fala da olivicultura como uma oportunidade e diz que “falta iniciativa, dinâmica e ambição” para desenvolver o sector olivícola na Beira Interior
À MARGEM de uma acção de divulgação da Bienal do Azeite 09 na Assembleia da República (ver pág. 17), o ministro da Agricultura desafiou os empresários a “arriscarem mais” no sector olivícola da Beira Interior, onde considera que “falta dinâmica e ambição”. Jaime Silva recorda que estão disponíveis apoios “que podem chegar aos 60 por cento do investimento” e que o futuro do sector passa pela revitalização de “olivais antigos, de lagares e de linhas de engarrafamento” e pela criação de uma grande marca na região, “uma indicação de origem com dimensão no mercado”. A produção de azeite biológico é um dos caminhos apontados por Jaime Silva
JF – Que incentivos existem hoje para a revitalização do olival?
JAIME SILVA – Temos um conjunto de apoios que vão desde o Proder para o investimento de plantação de novos olivais e modernização de olivais antigos, construção dos lagares, construção de linhas de engarrafamento. Dentro do Proder, através do Leader, podemos financiar tudo o que seja divulgação, centros de comercialização, imagens e marcas, criar micro empresas ou criar um grande pólo de distribuição em toda a Beira Baixa.
É importante criar esse pólo de distribuição?
Claro que sim, porque tal iria permitir aos pequenos e médios agricultores que não têm capacidade de colocar os seus produtos em mercados tão longínquos como a China fazê-lo. Criar um núcleo que dê uma dinâmica empresarial (a Câmara de Castelo Branco está apostada nisso), um núcleo que garanta a esses agricultores que há quem engarrafe, que há quem venda com mais-valias o azeite nos grandes mercados internacionais.
Tradicionalmente, o olival português não é uma cultura intensiva. O olival é hoje uma cultura rentável?
Não é uma cultura intensiva mas é uma cultura que tem um leque de oportunidades com diferentes tipos de ofertas no mercado. Por exemplo, a maior parte do olival tradicional tem uma densidade muito inferior a 300 árvores por hectare e pode facilmente ser transformado em azeite biológico que é muito valorizado em mercados como o da Escandinávia. Esse é, por exemplo o destino para o nosso olival tradicional. Depois temos as nossas variedades: a galega, por exemplo, que pode não dar para o superintensivo, mas já dá para o olival intensivo, é um outro patamar. Só para termos uma ideia, o hectare de cereal por ano emprega 0,4 homens, o hectare de olival chega quase a um homem. Se tiverem indústria transformadora, lagar e engarrafamento, são mais de quatro. Ou seja, cria mais riqueza, cria mais emprego e é muito mais importante do que estar a fazer cereais de sequeiro.
O azeite da Beira Baixa pode afirmar-se como um produto de exportação?
Hoje o azeite é um mercado que se está a sofisticar tanto como o do vinho. Já há provas internacionais, concursos internacionais e se o queijo de Castelo Branco e o Queijo Amarelo da Beira Baixa ganharam prémios em Nova Iorque, porque é que o azeite não pode conquistar também esses mercados?
O azeite tem ganho uma dimensão turística. Como é que encara essa situação?
Penso que os azeites tem muito a ganhar com a experiência já consolidada dos vinhos, por exemplo a Rota dos Vinhos. Os azeites podem aproveitar essa estrutura que já está montada e juntar-se como uma mais-valia nesses circuitos. Até porque o azeite é um produto que está na dieta alimentar.
Um dos problemas em Portugal é a rotulagem do azeite. De que maneira se pode alterar essa situação?
O grande desafio que eu quero lançar em Castelo Branco é o haver uma nova legislação. Pela primeira vez, os portugueses terão de olhar para o rótulo das garrafas e ver a informação da origem do azeite
Com a nova legislação isso não vai acontecer?
Nós não podemos perder essa carruagem. Com a nova legislação, que é obrigatória em toda a UE, temos de passar a ter nos rótulos se é ou não um produto português. Actualmente, o que é obrigatório é a indicação de caso seja uma denominação de origem protegida. Ora as nossas denominações de origem em termos de oferta de mercado não representam mais de 10%. Mas nós temos muito mais azeite que o que é comercializado, sem se saber de onde vem o azeite, sem sabermos mesmo se se trata de uma mistura de azeites...
O que falta a este sector?
Falta dinâmica, faltam pessoas como o sr. presidente da Câmara diz há algumas associações com excelentes técnicos na Beira Baixa. Mas faltam também empresários que arrisquem. Falta ambição, porque as medidas estão lá, e falta-lhes união. Primeiro, terem a noção de que há sempre um risco, depois que esse risco não é tão grande como noutras actividades porque temos financiamentos que em alguns casos vão até 60% do custo do investimento. Falta, na Beira Baixa, iniciativa.
Falta dimensão ao olival na Beira Interior?
Hoje não basta plantar o olival. É preciso sabê-lo transformar, saber engarrafá-lo, sabê-lo vender e é preciso ter dimensão. É preciso que se perca na Beira Baixa ou na Beira Alta esse individualismo, esse medo do risco ou a ideia de que somos pequeninos. Não somos.
Existem nichos de mercado para o azeite da Beira Baixa explorar?
O azeite biológico tem imensa margem para crescer. E o azeite, com as nossas variedades, sobretudo a galega que se dá particularmente bem na Beira Baixa, é um exemplo da diferenciação face ao azeite da arbequina que é o azeite maioritário do Alentejo, como o é face aos azeites de Trás-os-Montes que tem outras variedades mais fortes com paladares mais intensos.
Alguns produtores de azeite defendem que uma das soluções seria criar uma marca única. Concorda?
Eu não diria uma marca única mas sim que tal pode passar por criarmos uma indicação geográfica com dimensão: azeite alentejano, azeite das Beiras e azeite de Trás-os-Montes. Essas indicações geográficas deveriam funcionar como marcas para o consumidor, até porque são azeites muito diferentes uns dos outros. Depois, deixar a cada um a iniciativa de ter a sua própria marca, ter a sua própria capacidade de explorar o seu nicho de mercado. Criando um chapéu com uma grande dimensão e com uma imagem de qualidade, que seria o azeite das Beiras (que hoje estamos aqui a provar), teríamos campanhas de promoção colectivas .
Iniciativas como esta degustação e a Bienal do Azeite são importantes para criar essa dinâmica?
São muito importantes porque chamam a atenção dos portugueses para produtos de altíssima qualidade. Por outro lado, chamam os locais para os informar que há apoios, que há capacidade, que há vontade, inclusive a nível local através das Câmaras Municipais.
Quando será lançado o concurso final para acabar o regadio da Cova da Beira?
O senhor Primeiro Ministro já o disse que vamos fazer a última adjudicação para a sua conclusão este ano, antes do Verão. São 70 milhões de euros naquele que é o concurso final, para acabar o Regadio da Cova da Beira.
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