Por­que não há nenhum cida­dão do Porto com um mínimo de amor-próprio que não esteja farto de ser tra­tado com aquela con­des­cen­dên­cia sim­pá­tica


Por­que não há nenhum cida­dão do Porto com um mínimo de amor-próprio que não esteja farto de ser tra­tado com aquela con­des­cen­dên­cia sim­pá­tica com que se tra­tam os tupi­nam­bás da Ama­zó­nia ou os mas­sai do Quénia.
Foi com estas pala­vras que o jor­na­lista do Público, Manuel Car­va­lho, mos­trou a sua indig­na­ção, no suple­mento Local Porto do refe­rido diá­rio, de Sábado pas­sado, face ao que con­si­dera ser a forma con­des­cen­dente como os cida­dãos por­tu­en­ses são tra­ta­dos, em par­ti­cu­lar pela comu­ni­ca­ção social de Lisboa.
Até aqui nada de espe­cial, pelo menos nada que jus­ti­fi­casse um texto no blo­gue da Árvo­res de Portugal.
Mas veja­mos como, na segunda parte da citada notí­cia, o refe­rido jor­na­lista passa da crí­tica da entre­vista dos Gato Fedo­rento a Rui Rio, à crí­tica dos que defen­dem outra solu­ção para os jar­dins do Palá­cio de Cris­tal.
(…) Como há oito anos, o extre­mismo con­ser­va­ci­o­nista encon­tra na época ins­pi­ra­ção e tempo de antena para dar lar­gas à sua ima­gi­na­ção. Há oito anos foi o papão da cons­tru­ção civil que ia beto­ni­zar o Par­que da Cidade; agora é o papão dos inte­res­ses do grande capi­tal ou da espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria que quer des­truir o jar­dim do Palá­cio de Cris­tal para um cen­tro de con­gres­sos; no caso do palá­cio, o que se quer aba­ter são duas (vá lá, que sejam dez…) árvo­res para ampliar o espaço exis­tente.A dema­go­gia do con­ser­va­ci­o­nismo, que vin­gou em 2002 com a cum­pli­ci­dade de vários polí­ti­cos, não pode vin­gar em 2009. Ou um des­tes dias ainda tere­mos alguém a pro­tes­tar con­tra a recu­pe­ra­ção da Baixa pelos cus­tos que isso traz ao ecos­sis­tema das aranhas.
Perante um texto des­tes e por­que, não sendo cida­dão do Porto, sou um con­ser­va­dor amante de árvo­res e de jar­dins (segundo a lógica implí­cita na notí­cia), não podia ficar calado.Assim sendo, peço licença aos lei­to­res deste texto para me diri­gir direc­ta­mente, nas pró­xi­mas linhas, ao jor­na­lista do Público.
Por­que tenho o Manuel Car­va­lho em con­si­de­ra­ção, permita-me que lhe diga algu­mas coi­sas a este res­peito.Se o Manuel Car­va­lho está can­sado, como por­tu­ense, de ser tra­tado de forma con­des­cen­dente pelos órgãos de comu­ni­ca­ção social da capi­tal, não com­pre­endo o que o leva a tra­tar, com essa mesma con­des­cen­dên­cia, os que defen­dem outra solu­ção para os jar­dins do Palá­cio de Cristal.
Em deze­nas de linhas, não apre­senta uma única ideia em favor do que supõe ser a melhor solu­ção para este caso. Nem me parece que esteja muito inte­res­sado em dis­cu­tir ideias, mais o vejo inte­res­sado em adjec­ti­var as ideias dos outros e em fazer polí­tica, dando a enten­der expli­ci­ta­mente que os que se opõem a esta solu­ção são con­ser­va­do­res que se opõem ao pro­gresso. O recado está dado a pou­cos dias das eleições.
A pro­pó­sito das pró­xi­mas elei­ções autár­qui­cas, apro­veito para escla­re­cer que não sou elei­tor no Porto e que, objec­ti­va­mente, o resul­tado das elei­ções do pró­ximo Domingo, neste con­ce­lho, me é indi­fe­rente. Não escrevo este texto com intui­tos elei­to­ra­lis­tas, mais ou menos dis­si­mu­la­dos, mas ape­nas por dever de cons­ci­ên­cia.Aliás, des­co­nheço qual é a posi­ção de cada um dos can­di­da­tos à Câmara do Porto sobre este assunto, embora (como é óbvio) possa adi­vi­nhar qual é a posi­ção do actual presidente.
Dis­cu­tir ideias e solu­ções é uma maçada…Mais fácil é meter os que defen­dem os jar­dins do Palá­cio de Cris­tal no mesmo saco, como se fos­sem um con­junto de sim­pá­ti­cos “tupi­nam­bás do Ama­zo­nas ou mas­sai do Quénia”.
Não tenho dúvi­das que o Manuel Car­va­lho reco­nhe­cerá que os defen­so­res do papel das árvo­res nas cida­des, em par­ti­cu­lar das árvo­res velhas e monu­men­tais, não são todos iguais. E que, como qual­quer cida­dão com um mínimo de auto-estima, não supor­tam ser tra­ta­dos com pater­na­lis­mos de qual­quer espécie.
Pas­sa­dos tan­tos anos sobre o sur­gi­mento de ideias e de livros que muda­ram a nossa forma de ver as árvo­res nas cida­des, como A Árvore em Por­tu­gal dos arqui­tec­tos Cal­deira Cabral e Ribeiro Tel­les, sub­sis­tem os pre­con­cei­tos con­tra os que defen­dem estas ideias.
No fundo, nada se alte­rou nes­tes últi­mos anos. Quem defende o patri­mó­nio arbó­reo e pai­sa­gís­tico das cida­des con­ti­nua a ser visto como uma aber­ra­ção, um extra­va­gante ou, pior ainda, como um fun­da­men­ta­lista anti-progresso. Sendo que, em Por­tu­gal, por pro­gresso nunca se assume poder ser rea­bi­li­tar ou recu­pe­rar, mas antes cons­truir mais e mais betão.
Evi­den­te­mente que qual­quer cida­dão bem inten­ci­o­nado admi­tirá, se lhe for pro­vada a res­pec­tiva uti­li­dade, a neces­si­dade de cons­truir um cen­tro de con­gres­sos no Porto.Mas acaso será crime de lesa-pátria, ques­ti­o­nar a Câmara do Porto sobre a neces­si­dade de implan­tar este equi­pa­mento nos jar­dins do Palá­cio de Cris­tal? Não será obri­ga­ção da autar­quia por­tu­ense apre­sen­tar estu­dos que pro­vem como foram estu­da­das outras alter­na­ti­vas e o porquê do seu abandono?
E haverá dema­go­gia maior do que com­pa­rar a situ­a­ção dos jar­dins do Palá­cio de Cris­tal com a recu­pe­ra­ção da Baixa da cidade, a des­fi­gu­ra­ção de um espaço verde dos mais impor­tan­tes da cidade com aquilo que chama de “ecos­sis­tema das ara­nhas”? Se isto não é dema­go­gia, é o quê?!
Con­si­dero, igual­mente, não ser neces­sá­rio explicar-lhe que não é a mesma coisa aba­ter duas ou dez árvo­res, quando fala­mos de espé­ci­mes com deze­nas de anos. Por moti­vos esté­ti­cos, patri­mo­ni­ais e bio­ló­gi­cos, aba­ter um exem­plar com 50 anos não pode ser com­pen­sado com a plan­ta­ção, nou­tro local, de árvo­res jovens (ainda que em número supe­rior aos exem­pla­res abatidos).
Quando se aba­tem árvo­res com deze­nas de anos há valo­res pai­sa­gís­ti­cos que se per­dem e que serão irre­pe­tí­veis; há perda do car­bono que foi acu­mu­lado, durante déca­das, sob a forma de maté­ria orgâ­nica e há perda da bio­di­ver­si­dade asso­ci­ada aque­las árvo­res (fun­gos, líque­nes, inver­te­bra­dos, aves, plan­tas epí­fi­tas,…). No fundo, os tais ecos­sis­te­mas que ten­tou ridi­cu­la­ri­zar no seu texto.Creio que con­cor­dará comigo que, quando se opta por ten­tar ridi­cu­la­ri­zar as ideias dos outros, reduzindo-as a uma cari­ca­tura, mais não faze­mos do que admi­tir a fra­queza dos nos­sos argumentos.
Nem todos os que estão deste lado da bar­ri­cada são fun­da­men­ta­lis­tas que se opo­nham, de forma dog­má­tica, a toda e qual­quer inter­ven­ção que impli­que o abate de árvo­res. O corte de árvo­res é admis­sí­vel quando em causa está a segu­rança de pes­soas. O corte de árvo­res é admis­sí­vel quando em causa está a cons­tru­ção de equi­pa­men­tos de uti­li­dade pública, como um hos­pi­tal e que, com­pro­va­da­mente, não pos­sam ser cons­truí­dos nou­tro local.Mas não nos peçam para acei­tar uma solu­ção que implica o des­fi­gu­rar de um jar­dim, ape­nas com o argu­mento do suposto pro­gresso, sem que antes se prove, de forma inequí­voca, a uti­li­dade do dito equi­pa­mento e a impe­ri­osa neces­si­dade de o implan­tar neste local. Não abu­sem da nossa boa vontade!
Para ser mais fácil de enten­der, soli­cito ao Manuel Car­va­lho que visu­a­lize a sua encosta pre­fe­rida das mar­gens do Douro, que tanto ama. De seguida, ima­gine que alguém lhe diz que essa encosta e os seus vinhe­dos vão ser par­ci­al­mente des­truí­dos para fazer uma qual­quer estru­tura, a bem do pro­gresso da região.Qual seria a sua pri­meira reac­ção? Seria dizer sim, sem ques­ti­o­nar os porquês da neces­si­dade de cons­truir esse equi­pa­mento, sem ques­ti­o­nar a neces­si­dade de o mesmo ser cons­truído nessa encosta e não nou­tro local?
Para ter­mi­nar, caro Manuel Car­va­lho, e com uma pon­ti­nha de iro­nia, deixe-me que lhe diga que todos nós sabe­mos como o papão (uti­li­zando as suas pala­vras) da cons­tru­ção civil e o da espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria têm con­tri­buído para a melho­ria da qua­li­dade de vida nas cida­des e, de um modo geral, para o desen­vol­vi­mento do nosso país.
Lamen­ta­vel­mente, sub­siste o peri­goso lóbi dos con­ser­va­do­res aman­tes de árvo­res, um pre­su­mí­vel bando de ener­gú­me­nos, que mais não faz do que obs­truir o pro­gresso, neste caso da cidade do Porto.
Ter­mino com as pala­vras do Paulo V. Araújo, nosso colega e co-autor do Dias com Árvo­res, que resu­mem, de forma clara e objec­tiva, o que está em causa nesta situação.
A “ver­dade ofi­cial”, que é a dos arqui­tec­tos e a dos seus porta-vozes ofi­ci­ais ou ofi­ci­o­sos, acaba sem­pre por se sobre­por à opi­nião dos sim­ples cida­dãos. Acresce, neste caso, o engodo do inves­ti­mento “imper­dí­vel” que vai revi­ta­li­zar uma cidade depri­mida e blá-blá (é o velho canto da sereia), tra­zendo con­gres­sis­tas endi­nhei­ra­dos aos milha­res para fazer des­pesa farta em hotéis e restaurantes.
Tudo isto se vê à dis­tân­cia. Como suce­deu nou­tros casos, a his­tó­ria já come­çou a ser rees­crita do lado dos ven­ce­do­res. Redu­zir o pro­blema da cons­tru­ção ao abate de meia-dúzia de árvo­res é uma cari­ca­tura mal­dosa (o arqui­tecto admi­tiu que eram cinco, mas o jor­na­lista, obse­qui­o­sa­mente, optou por bai­xar o número para dois; de facto são mui­tas mais). O que está em causa é a adul­te­ra­ção de um jar­dim, e a crença tão lusi­tana de que jar­dins, par­ques, lagos e árvo­res não são úteis por si mesmo e têm de ser valo­ri­za­dos com “equi­pa­men­tos”. O nosso Par­que da Cidade vai a cami­nho de se trans­for­mar numa feira popu­lar, onde cabe tudo menos a con­tem­pla­ção sos­se­gada da natureza.
(As foto­gra­fias são da auto­ria de Paulo V. Araújo.)

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