Evolução da floresta portuguesa e comparação com a Europa
Todos os estudos conhecidos convergem para a ideia de que o coberto vegetal que, depois das últimas glaciações dominava a paisagem das montanhas do continente, era constituído sobretudo por árvores do género Quercus (carvalhos de folha caduca, no Norte, e em menor escala do género Pinus (pinheiro bravo, manso e silvestre). Esta floresta foi desaparecendo quer pelo abate das árvores propriamente ditas, quer pelo fogo, com o objectivo de fomentar o pastoreio e agricultura, havendo um esforço para inverter esta situação apenas nos dois últimos séculos, com várias iniciativas de arborização.
A mesma tendência aconteceu na Madeira e nos Açores, embora o facto desta evolução ter ocorrido num espaço de tempo mais condensado do que no continente, permitiu poupar os arquipélagos de uma degradação completa da floresta original. Prova disso, é a existência ainda hoje de uma espécie vegetal dos tempos primórdios da Madeira – a Laurissilva – reconhecida como património natural mundial.
A constatação das consequências da desarborização, levaram, no século XIX à criação de sucessivas entidades e de estratégias de protecção florestal, à semelhança do que já tinha acontecido noutros países da Europa, como França, Dinamarca e Holanda. No início e meados do século XX, houve também vários esforços no sentido de aumentar a área florestal portuguesa, sobre tudo com o recurso ao pinheiro bravo e ao sobreiro. O aparecimento do Eucalipto, na década de 60, foi, por sua vez, fortemente impulsionado pela implantação de indústrias de pasta e papel. Este aumento da área de Eucaliptal e o progressivo aumento do número de incêndios levou à redução da área de pinhal bravo.
Tendo presente a situação actual e comparando com outros países da Europa, Portugal está abaixo de países como a Finlândia, Suécia e Eslovénia, que têm mais de metade do seu território arborizado. Mas, se compararmos com a média europeia (31%) e com outros países do sul da Europa, podemos considerar que, apesar da degradação progressiva, temos um país tipicamente “florestal”. De facto, a paisagem florestal cobre mais de 1/3 do território nacional e, em conjunto com outras associações vegetais, encerra uma grande biodiversidade.
Relativamente ao peso da actividade florestal sob o ponto de vista económico, sabe-se que esta contribui com 3% para o Produto Interno Bruto (PIB), abaixo dos 5% da Finlândia ou Suécia, mas de qualquer forma um peso significativo se tivermos em conta que está na mesma ordem de grandeza das actividades agrícolas e agro-alimentares ou do sector dos testeis e vestuário.
Para estas estimativas económicas (dados de 2003), conta a relevância de três principais espécies florestais - Pinheiro, Eucalipto e Sobreiro, necessárias para desenvolver os seguintes sub-sectores incluídos na silvicultura e actividades silvícolas:
-Papel e publicações (36%)
-Madeira e resinosos (33%)
-Silvicultura e caça (23%)
-Cortiça (8%)
No caso da cortiça, a indústria a ela associada tem um peso considerável na economia portuguesa. Esta actividade depende apenas dos recursos internos, sendo que 2/3 da produção mundial tem origem em Portugal. Às razões económicas somam-se razões ambientais para que o sobreiro, seja uma das espécies florestais legalmente protegidas. Essas razões ambientais prendem-se com o facto dos montados de sobreiro (conjugação de sobreiros e de azinheiras com actividades agrícolas e pastoris) estarem harmoniosamente adaptados ao clima e, portanto, evitarem o alastramento de fenómenos de desertificação do solo nessas regiões.
As outras duas espécies florestais que são também objecto de legislação específica para a sua protecção são a azinheira e o azevinho (em perigo de extinção devido ao valor simbólico na época natalícia). Actualmente, é proibido o arranque, o corte total ou parcial, o transporte e venda do azevinho espontâneo.
Degradação das florestas e incêndios
Em Portugal, a degradação das florestas e particularmente do solo tem-se dado, em larga medida, devido à exploração intensiva de Eucalipto. Esta espécie, oriunda da Austrália entrou no século XIX no nosso país, embora o seu cultivo só tenha sido generalizado na década de 80 do século XX. Nos dias de hoje os eucaliptos ocupam um total de 700 mil hectares, a mesma área de montados de Sobreiro. O seu rápido crescimento (rentabilização em 10 anos), devido à alta capacidade de produzir celulose, fez do eucalipto a espécie de excelência para a indústria de pasta de papel. Não obstante, aos poucos começaram a emergir vários argumentos que colocam esta espécie como causadora de vários problemas ambientais a nível nacional. O eucalipto, como espécie exótica, e portanto não integrada nos nossos ecossistemas típicos, por um lado, consome demasiada água relativamente à capacidade dos nossos solos; por outro, esgotam os nutrientes do solo, empobrecendo-o.
Também ligado à erosão inclui-se o problema das movimentações do solo necessárias para o plantio, com recurso a máquinas pesadas. De um modo geral, comparando com outras formações florestais, a monocultura desta espécie leva, assim, à formação de povoamentos pobres em flora e fauna com todas as consequências que isso acarreta para o equilíbrio de qualquer floresta.
Quanto aos incêndios florestais e suas consequências, é sabido que a intervenção humana, nomeadamente, através da má gestão dos povoamentos florestais, de práticas agrícolas incorrectas e de atitudes negligentes ou mesmo intencionais têm feito aumentar drasticamente a frequência de incêndios, pondo em causa a regeneração das florestas, e a protecção dos próprios cidadãos e seus bens.
Dados da Comissão Europeia, de 2006, dizem que Portugal é o país do Sul da Europa que mais incêndios florestais teve, nos últimos 25 anos, e que é um dos que tem uma maior área do seu território destruída por este flagelo.
No nosso país, entre 1980 e 2003, houve dez anos em que os incêndios ultrapassaram os 100 mil hectares de área ardida por ano, tendo em 2003, chegado aos 420 mil hectares. Segundo esses números, entre 1980 e 2003, houve 398.682 incêndios em Portugal (38,1 por cento do total). Neste período, a superfície ardida foi de 4.572.462 hectares em Espanha, 2.897.396 em Itália, 2.584.895 em Portugal, 1.138.031 na Grécia e 757.358 em França.
A situação relativa de Portugal é mais preocupante se pensarmos que o país tem uma superfície cinco vezes menor do que a Espanha e três vezes menor do que a Itália, se nos referirmos apenas aos estados com uma maior área ardida.
Com este panorama, já não é novidade a destruição maciça de zonas florestais, nos últimos anos, devido ao risco de incêndio existente na floresta portuguesa e à forma como o fogo é frequentemente utilizado junto aos espaços florestais, com ameaça de habitações inclusive.
E não podemos esquecer que, a longo prazo, as perspectivas relativamente às alterações climáticas em Portugal apontam para uma subida da temperatura global (maior número de dias com mais de 35ºC) e maiores períodos de seca, levando ao aumento de risco de fogos florestais.
Dada a gravidade e amplitude deste problema, torna-se cada vez mais claro que, para além das necessárias medidas a desenvolver e a implementar pelos organismos estatais responsáveis e proprietários florestais, a prevenção e minimização dos incêndios florestais precisa de um profundo envolvimento de todos os cidadãos.

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